25 de setembro de 2015

CARAÍVA

Perdido na praia o dia todo
com os olhos pregados
em suas curvas morenas.

As nuvens rolavam assim,
Enquanto ela descobria o seio
Para o filho mamar mais.

Como índios,
Esperamos a noite cair
Para um banquete no escuro.

Fazer amor com a lua -
Preguiçosamente -
E dançar ao som da sanfona
E do triangulo, até amanhecer
Na praia. Encontro do rio
com as águas do mar no mangue.

18 de abril de 2015

BEIJO COM PIMENTA
Julho de 2013

-Me beija antes de jogarem mais spray de pimenta!
Ela me pedia acuada em um bar na Lapa,
Enquanto a multidão corria
Enquanto nossas bocas queimavam e nossos olhos ardiam
As bombas caiam, pessoas caindo, bandeiras caídas, por que não cairíamos também nós,
Numa ilusão de mudança - um sonho de paz – que era pólvora pura?

A rede social botou todo mundo junto ao mesmo em todo o lugar.
Paramos o Brasil para fazer amor nas avenidas,
Mas depois de algumas vezes descobrimos que somos muito diferentes.

A separação não foi amigável, queimamos nosso ninho e fugimos
Da carrocinha como cachorros loucos, raivosos e sarnentos.
Já não podemos jogar as máscaras fora e quando o Choque marcha...

Tontos pelo gás lacrimogênio, pasmos se perguntam em que ano estamos.
- Vamos voltar às ruas? Se fugirmos para onde podem levar isso?
Eu não sei responder, então a beijo para não chorar.
Rio de nervoso

O Rio de Janeiro
Em fevereiro ferve.
É feito sexo, samba,
Suor, cerveja e
Água do mar.

É povoado de gringos
E mulatas, prostitutas,
Travestis, traficantes,
Malandros da Lapa.

É um sonho cyberpunk:
Andróides sexuais,
Fausto Fawcett,
Fuzis e granadas caseiras.
Um gozo desesperado
No meio de um tiroteio.

Mas é cidade romântica,
Oferece um amor
Em cada esquina,
Uma moça de Vinicius
E uma noite de Noel Rosa.
Dá gosto passear por suas ruas
Como fazia o João do Rio.

Juntando essas duas partes
Temos um ansioso bipolar.
Entre alegrias de carnaval
E o medo das balas perdidas,
Precisa de farmácias sempre abertas
Repletas de calmantes e soníferos;
Muitos bares para rir ou chorar
E igrejas que vendem o sucesso
Em pequenas prestações.

O Rio vibra com uma gargalhada
Histérica. Riso de nervoso.





19 de outubro de 2014

Ladrão de horas

Quem roubou a meia-noite?
Quem furtou as horas dos amantes,
Usurpou os sonhos dos poetas
E fez cal do orvalho distante?
Era meia-noite e meia
A hora marcada por você
Para me dar uma madrugada,
Mas já não há mais como.
A noite a tudo envolveu.
Em seu silêncio, espreita
Algo faminto por minutos
E momentos que não vivemos.

12 de julho de 2014

ESPELHOS E FUMAÇA

Observo esse xadrez de partida tão antiga
Sem saber se os blocos negros ganham o jogo.
Já não entendo a mensagem das torres de marfim,
Sem ouvir o que não pôde ser escrito.

Entre espelhos e fumaça, não distinguo contornos
Dessas peças que tento em vão encaixar.
Vejo reis, sem enxergar os jogadores,
Que se oferecem para logo desferir o golpe fatal,
Com um cavalo esquecido ou aquele bispo distante.

Afinal, nunca foram apenas dois nesse jogo
E até as rainhas - de ambos os lados -
Se movem como que por vontade própria
(Ou ficam imóveis), mas são impulsionadas
Por motivos e forças desconhecidas:
Tradição, dívidas ou luxúria insaciável.

Por trás de espelhos e fumaça, estão as sombras
Onde se esconde quem transformou a vida
Nesse xadrez estampado nas páginas dos jornais,
Em livros de história, falências generalizadas,
Revoluções frágeis, guerras longínquas
E armas de destruição em massa.

Não nos deixam reconhecer os corpos
Refletidos nas vidraças quebradas.
Não é possível apurar fatos apagados
Pelo fogo a destruir sobrados do passado.
A verdade se perdeu nesse labirinto
De espelhos encobertos por fumaça.

Para achar algum sentido nesse xadrez sem fim
É preciso olhar fundo nos olhos do seu reflexo
E ver a única fronteira em jogo nessa batalha
Tão repetitiva: a liberdade da sua mente.

As pedras não têm mais cores por baixo da fuligem.
Os movimentos - à direita ou esquerda -
Já não levam na mesma direção que apontam.
Mentiras invertidas se tornaram a regra
E só nos restou assistir a mais um jogo
Através de espelhos (de plasma) e fumaça (das bombas).

Quando tomba um rei sobre o tabuleiro,
Outro déspota logo vem para tomar o trono,
Mas os blocos negros e os peões brancos
São dois lados da mesma moeda, opostos complementares.
Quando saem de suas casas para vencer o inimigo,
Não sabem quais vitórias suas ações -
Contorcidas em espelhos e veladas por fumaça -
Irão por fim engendrar.

Deixo essa disputa para bispos negros
E os quatro cavaleiros - até o fim do mundo...
Que todas as peças caiam, os espelhos se quebrem
E a fumaça se dissipe diante nossos olhos!

16 de outubro de 2013

Escaravelhos no deserto

O céu paira insondável
sobre todos nós -
Nada revela além de pássaros,
Nuvens e balões.

Nem o sol e lua
Revelam certos enigmas.
Nas estrelas que formam
Desenhos, o quanto
Precisamos mergulhar
Para domar a esfinge?

Cavei escaravelhos no deserto
E entre pirâmides encontrei
Mistérios insolúveis.

Não há verdades absolutas
No meu horizonte
E como o dia se faz noite
Eu também passo pela vida,
De uma coisa à outra
levando apenas o essencial:
O momento presente.

E como à noite nasce o dia,
Eu também trago luz
Aonde a escuridão
Protege o que não revela:
O pensamento oculto.


15 de outubro de 2013

Glória, fama e fortuna

Glória, fama e fortuna -
Belas putas
Filhas da puta
Madre Guerra.

Quantos cortejaram
A madre superior
Apenas para foder
Suas suculentas noviças?

Todos os prêmios doces
Dos vitoriosos viraram
Pó e areia na boca
De perdidos e derrotados.

Mesmo com todo o sangue
Buscam a cama dessa madame
Soldados e generais,
Banqueiros e diplomatas;
Em surubas regadas a grana
E delírios de grandeza.

Quanto podemos perder
Ou ganhar com mais um
Conflito sangrento?

Nada importa!
A maior tara
É mesmo de matar
E depois de enjeitada a briga
Até com quem perde,
Glória, fama e fortuna
costumam se deitar.

8 de março de 2012

Flor Marciana

Em Marte achei sob uma porta
Uma flor estranha, com pétalas,
Espinhos e néctar para saciar

Minha eterna sede por beleza.
Senti dor quando beijei seu espinho.
Mas foi o seu ungüento, minha cura.

Não havia vida à sombra das pirâmides.
Os sonhos marcianos acabaram.

Somente minha impossível flor azul
Brota naquelas areias vermelhas.